A fogueira queimava ainda, os dois amigos haviam se dado uma folga do ritmo insano da vida numa destas cidades turísticas cheias de cachoeiras, chão batido e comida do interior, eles não entendiam como esse ambiente podia atrair tantas pessoas “hippies”, mas lá estavam, o estalar das chamas preenchia o silêncio da noite e eles sentavam-se lado a lado, deixando o frio do vento aproximá-los. Um deles, com o olhar perdido no fogo, quebrou o silêncio.
— Às vezes — começou ele —, me pego pensando… Quanto é demais? Quero dizer, até onde dá pra ir tentando ser outra coisa antes de você mesmo se perder?
O outro, encolhido, mexendo nas brasas com um graveto, tentando acender o seu sabesse lá o quê, ergueu os olhos para o amigo, seus olhos o convidavam para dizer mais. Ele não disse nada, mas seu corpo dizia que ele estava escutando.
— É como se minha própria voz já não fosse minha, que meus sorrisos fossem falsos e escondessem toda a minha angústia. Cada palavra que eu digo parece filtrada por algo que nem sei de onde veio… nem se fui eu que escolhi.
Largou o graveto, inclinando-se ligeiramente para a frente. Sua expressão, antes despreocupada, endureceu com uma seriedade inesperada.
— Cuidado, cara. Só não disfarça demais. Porque, um dia de tanto fingir, a boca descola de você. E aí — os olhos cravados no amigo —, ela vai começar a falar sozinha, rir sem a sua permissão. E um dia… um dia, ela vai rir de você. E aí, meu amigo, não tem imensidão no olhar, não tem profundidade na alma, não tem gesto sincero que conserte o que uma boca desertora consegue destruir.
O outro permaneceu em silêncio, encarando as chamas como se buscasse respostas entre as brasas, as palavras o estremesseu mais que o vento frio e sentiu vontade de se encolher se abraçando também. As árvores dançavam em um ritmo inquietante graças ao vento, os dois ficaram ali as olhando. Não havia mais nada a ser dito.