Acordei no susto,
como quem escapa de um incêndio —
como quem acorda todos os dias após sobreviver a um incêndio.
Hoje é terça ou quinta?
Já não sei.
Os dias escorrem
parecem estar com pressa de ir,
não querem mais acontecer — apenas passar.
E eu, mal tive tempo de estar neles.
Troco nomes, esqueço rostos, apago memórias,
não por distração —
mas porque tudo se parece quando se vive em 2x:
as pessoas, as ruas, os sonhos.
Tudo blasé.
As férias duram menos que esse meu suspiro de cansaço.
E os fins de semana?
Corredores velocistas numa prova de maratona.
Uma maratona de servidão.
O amor vira stories.
O descanso, culpa.
E o tempo — esse canalha — zomba de mim.
Um deus cruel:
como pode passar tão rápido.
e ainda nos fazer sentir tão parados?
Vejo fotos antigas.
e não reconheço o homem sorrindo.
Talvez ele tenha escapado antes da aceleração.
Talvez tenha morrido sem avisar.
Não é do meu trabalho que reclamo.
Nem do seu.
Nem daquela escala 12 por 36, 6 por 1,
1 vida por 1 salário,
1 olho por 1 dente.
É do sistema —
que vende a pressa como virtude,
promete liberdade.
e entrega apenas uma coleira confortável.
Os acionistas viraram deuses.
e nós…
sacrifícios vivos queimando tempo e sangue
em troca de boletos pagos.
Durmo com a cabeça cheia de janelas abertas.
Sonho com notificações que ainda não chegaram.
Acordo no meio da noite —
não por insônia,
sei lá o porquê…
Talvez por aquele chat que não respondi.
Amores somem mais rápido.
que as notificações do meu celular.
Tanta tecnologia pra automatizar a vida —
e tudo o que ganhamos
foi a chance de trabalhar mais rápido.
Mas não viver mais.
O ano passou.
A vida passou.
Eu também.
Mas ninguém percebeu.
Porque passei tão rápido quanto o dia.
Passei sem rastros.
Sem incomodar. Sem ser.
Ou porque, aqui, no fim das contas…
ser invisível
é o preço pra continuar existindo no cotidiano.
Existir no cotidiano —
é onde a vida está.
O grosso dela.
O 80/20.
Viver de sua autenticidade é belo,
mas é extraordinário.
O ordinário nos molda o tempo todo,
pelo desgaste, pela repetição.
É no ordinário que o tênis laceia,
que a panela desgasta,
que a calça desbota.
É no ordinário que mora o possível.
No fim, luto pelas coisas
impossíveis.