Crescemos ouvindo histórias
para não nos aventurarmos à noite
não atravessar a floresta sombria,
esperar o amanhecer
Olhamos para a noite
como se algo estivesse acabando.
Diferente de quando olhamos para o amanhecer,
para o dia,
como se houvesse infinitas possibilidades por vir.
A noite não.
A noite é um fim.
Por que damos essas emoções à noite?
Sentimo-nos mais tristes,
mais depressivos,
culpados pelas coisas que não aconteceram ainda,
quando, na verdade,
é só mais uma noite,
igual era mais um dia.
Por que vemos os dias com esperança
e as noites como finais?
Os antigos falavam
para termos cuidado
com aquilo que dizemos em voz alta à noite.
Nunca se sabe
qual deus pode estar escutando.
Os deuses do dia são todos alegres,
são todos confiáveis.
pode-se confiar…
Mas é preciso ter cuidado
Os deuses que andam à noite.
Hmm…
Nunca se sabe
qual pode estar ouvindo.
Às vezes eu fico desejando
ser um desses animais peçonhentos,
sabe?
Desses que andam à noite,
um escorpião,
uma aranha talvez.
Porque só imaginamos insetos à noite?
mas não pensamos naquela onça,
naqueles olhos azuis e noturnos,
brilhando
como se fossem as almas perdidas
no meio da floresta.
Queria estar dentro da cabeça de um desses animais.
Porque, da mesma forma
que durante o dia,
quando acordo,
imagino uma infinidade de possibilidades
que podem me acontecer,
fico pensando
se um desses animais
tem esse mesmo tipo de pensamento
quando a noite chega.
Enquanto estou lá, desesperançoso,
eles estão apenas começando
a tecer as suas esperanças.
É engraçada o mundo, né?
Enquanto alguns estão se perdendo,
outros estão se encontrando,
no mesmo lugar,
no mesmo quadrado.
O mundo é o mesmo,
o tempo é o mesmo,
o lugar,
as pessoas,
as coisas.
É tudo a mesma coisa
Mas aquilo que faz um se perder
faz outro se encontrar.
É curioso pensar sobre essas coisas, né?
Alguém precisa proteger
os viajantes,
os vigilantes,
os errantes.
Que terríveis são os deuses dos dias,
negando sua proteção
àqueles que respiram a noite,
àqueles que velam
pelo sono de seus crentes.
São crianças,
isso que são os deuses do dia,
incapazes de entender
quem trouxe a manhã tranquila.
Imagino um mundo
onde a noite deixou de existir
e levou com ela seus amantes.
Um eterno dia,
cada vez mais laranja,
vermelho,
sitiado.
Céu de sangue.
Sem mais o azul da calmaria,
da oportunidade,
apenas o cheiro terroso,
sulfúrico.
O inferno, com certeza,
é o dia que nunca anoiteceu,
à contragosto do que todos esperariam.
O dia vermelho.
O dia que nunca acabou.
Tenha cuidado com os deuses
que só saem de dia.
Eles vão destruir você.