O dia nasceu cheio de promessas: céu azul, brisa fresca, música ao fundo. Poderia ser Vivaldi. Poderia ser Daniela Mercury. Quem sabe? A melodia flutuava, preenchendo tudo como um encantamento, dissolvendo a fronteira entre o comum e o extraordinário.
Tenho a vida doida, encabeço o mundo
Sou ariano torto, vivo de amor profundo
Sou perecível ao tempo, vivo por um segundo
Perdoa, meu amor, esse nobre vagabundo
Quanto tempo tenho pra matar essa saudade?
Meu bem, o ciúme é pura vaidade
Se tu foge, o tempo logo traz ansiedade
Respirar o amor, aspirando liberdade
Cândido começava seu dia já atarefado, precisava passar no supermercado antes de encontrar a banda. Algo para comer, qualquer coisa. Passara a noite inteira mergulhado escolhendo o repertório da banda para o show de um cliente, uma dessas grandes empresas, cheias de departamento. Havia se acostumado com a forma como censuravam o que podia e não podia ser tocado, regulando a trilha sonora de suas próprias celebrações. Dessa vez, era para uma festa de final de ano, a música deveria ser vibrante, mas controlada.
O mercado parecia saído de um comercial otimista dos anos 50. As prateleiras brilhavam, organizadas de forma perfeita. Clientes sorriam como se tudo estivesse no lugar certo. Mas na fila dos caixas, a harmonia se quebrava: atendentes cansados, clientes impacientes, um homem encarando a bunda de alguém, um casal distraído, atrasando a fila.
Cândido caminhava tranquilo, maleta de equipamentos em mãos. Escolheu um pacote de biscoitos, pegou uma garrafa d’água e seguiu para o caixa. O dia parecia comum.
Até que a atendente, de avental quadriculado e olhos frios, o encarou. Um sorriso sutil, quase satisfeito surgiu em seu rosto.
— O senhor roubou esses equipamentos do mercado.
Sua voz não tem hesitação, apenas a firmeza impessoal de quem já decidiu. Talvez tenha tido um dia ruim. Talvez tenha passado por tantas injustiças que agora sente prazer em regurgitá-las no primeiro rosto inocente que encontra. E infelizmente, Cândido estava no lugar errado, na hora errada.
Ele sorri, tentando entender a confusão.
— Não, não. Eu já os tinha antes.
— Então me mostre a nota.
Ele suspira, pisca confuso. Como provar algo que sempre foi seu?
A paciência é um dom. Com delicadeza, argumenta que não pode confessar algo que não fez. Ela, teimosa, segura os equipamentos. Ele segura de volta, sem agressividade, apenas um olhar gentil e resignado.
— Se quiser, pode chamar a polícia. — Ele sugere, cortês, confiando na justiça do mundo.
E assim começa sua espera.
Cândido se sente num filme, desses que a câmera corta, o relógio no fundo do mercado gira rápido, marcando os minutos, depois as horas, o tempo alongava-se, distorcia-se.
Ele está sentado na cadeira. Agora, clientes diferentes entram e saem. Uma turma animada de jovens se aproxima. Um deles, de gestos exageradamente afáveis, estende um pequeno saquinho.
— Quer um pouco disso? Vai ajudar a passar o tempo.
Ele recusa, ainda que sua expressão mostrasse uma pontinha de curiosidade, mas algo mudou. As cores ao seu redor ficaram mais intensas, as imagens fragmentadas. O zumbido das lâmpadas cresceu, preenchendo cada canto. O ar carregava umidade excessiva. Um Palhaço enorme dançava entre os corredores, espiando-o entre pacotes de arroz.
— Mas como…? Eu recusei. Preciso estar lúcido quando a polícia chegar. Só assim poderei provar minha inocência.
Mas isso não importa agora. Ele continua ali, esperando, estoico, paciente. Sempre esperando.
Contudo, algo começa a incomodá-lo. Tudo aquilo parece muito mágico, o tempo parece já não fazer sentido. As pessoas ao redor parecem repetições de si mesmas, pequenos ecos de algo que já aconteceu antes. Mas não, ele sabe que está apenas cansado, que esperar por tanto tempo pode entorpecer a mente. Talvez seu tédio esteja criando ilusões. Talvez ele esteja apenas vendo coisas onde não há nada.
— Onde está a polícia? Estou ficando sem tempo.
Ele duvidou da própria sanidade. Talvez tivesse experimentado o saquinho sem saber. Mas se estivesse alucinando, perceberia. Certo? Respirou fundo e se forçou a lembrar de cada momento. Tudo fazia sentido. Tudo parecia real. Apenas precisava de um pouco mais de paciência.
O dia virou noite. A noite virou dia.
Ele respira fundo e se força a lembrar dos momentos anteriores, buscando alguma falha, alguma incongruência que prove que está sonhando ou drogado. Talvez o tempo prolongado na espera esteja lhe pregando peças. Talvez seja apenas sua mente tentando se distrair da monotonia.
Ele encara as prateleiras, os rostos que passam, e se convence: tudo continua como deveria ser. Apenas precisa manter a paciência. Ele ainda sabe quem é, onde está e o que espera. E se tudo continua igual, então tudo está bem. Só precisa de um pouco mais de paciência.
A música permanece constante, as cores do mundo ainda são alegres, vibrantes, exageradas, artificiais. Cada objeto brilha em tons intensos, cada rosto parece sorrir com uma felicidade plástica. Tudo está no lugar certo, exatamente como deveria ser. Se há algo errado, ele certamente não consegue ver. O tempo, que para ele se dissolve em uma espera tranquila, continua a passar de forma quase imperceptível.
Um dia, um homem se ajoelha diante dele e desenha algo no chão.
— O que você vê?
Ele se inclina, franzindo a testa.
— Lobos. Só lobos.
O homem suspirou e foi embora. Cândido já o conhecia. Toda hora aparecia e repetia o mesmo desenho. A resposta dele nunca mudava.
Esse cara ainda vai me deixar doido.
Os dias avançaram. O tempo se tornou uma mancha indistinta. Mas então, numa última tentativa, ele forçou os olhos. Algo mudou. Ele viu palavras, não lobos. Letras organizadas como em um artigo acadêmico.
E ao olhar para o lado, ele não estava mais no mercado.
Estava numa sala branca.
Diante dele, um médico observa com um olhar misto de compaixão e cansaço.
— Quase trinta anos, senhor. Você esperou 28 anos.
A câmera se abriu. Lá fora, o céu escuro brilhava com um manto de estrelas. Ele piscou várias vezes, tentando ajustar a visão para algo que não via há muito tempo. E então, sentiu.
Um arrepio. Uma sensação profunda, esquecida. Algo emergia de dentro dele, algo primitivo e puro.
Lágrimas rolaram pelo seu rosto.
— Eu… eu tinha esquecido como elas eram.
A música diminuiu, tornando-se um eco suave enquanto ele, pela primeira vez em quase três décadas, caminhava para fora. O tempo, que para ele não passou nem uma hora, havia consumido toda uma vida.
FIM