Já fui silêncio,
morei numa caverna há muito esquecida,
numa montanha de vidro, espelhos e reflexos.
Nas paredes, fractais do mundo externo
flores, estrelas, pessoas,
padrões belos, cintilantes, mutáveis,
impermanentes.
Via o céu sob meus pés e o chão acima de mim.
Toquei cumes que nunca alcancei,
Enxerguei saídas que nunca achei.
Ecos chamavam meu nome,
um nome que nunca escolhi,
vozes de quem nunca conheci.
Vivia entre cavernas,
bebendo de rios subterrâneos,
nutrindo de cubos de sal.
Como é difícil achar água em um mundo de espelhos,
como é difícil comer em um mundo de pedras.
Rios fugiam quando eu os seguia,
pedras cortavam quando eu as mordia.
Meu mundo era de vidro, fractais e reflexos.
Eu via rios que não existiam,
jardins intocados, perfeitos,
pessoas que nunca souberam meu nome.
pessoas que eu nunca soube o nome.
Eu via o céu, a cegueira do dia e o vulto da noite
a luz me fazia desejar a escuridão,
e o breu da noite sufocava
me deixando sem saber o que mais desejar
Certa vez me cortei.
Vi meu sangue escorrer,
fractais escarlates, vivos, lindos
Meu sangue era rio,
um rio fugindo de mim.
Desci a correnteza,
fui margem de mim mesmo,
nascente e fim.
Acordei no descampado,
um mundo fora de mim
Ali, plantei estrelas, flores e gente
Não entendia a beleza das flores,
adoradas, fixas, contidas
Não entendia os jardins,
fechados, verdes falsos, regrados
Não entendia também que fui flor num jardim de mim
Não entendia a beleza das estrelas,
solitárias, noturnas, estáticas
Não entendia o firmamento,
distante, repetido, intocável
Não entendia também que fui uma estrela no céu para ti
Não compreendia a beleza das pessoas,
sofridas, falantes,
me coroavam com dores sutis.
Agora, sou o rio.
Fugindo de gente.
Que ainda sabem o nome que um dia esqueci.