Na minha última viagem, eu estava no topo de uma
colina, tendo à minha frente uma longa descida e uma nova
planície. Eu estava olhando para uma guarita ao longe e, de
repente, fui tomada pelo desânimo. Pensei comigo mesma:
de novo a escada, a sala dos guardas, a jaula e os quarenta
cadáveres ressecados. Sentei no chão e entendi que estava
cheia daquilo. Durante mais de vinte anos vivendo sozinha,
a esperança tinha me sustentado, e agora ela estava
subitamente me abandonando. Eu imaginara milhares de
vezes um porão onde a grade estaria aberta, onde os
prisioneiros, embriagados de alegria, teriam conseguido
escapar: eles teriam visto o céu, a planície, teriam
estremecido, teriam pensado em cidades, em resgate, mas
teriam, como nós, encontrado esta liberdade vazia na qual
eu passara minha vida. Era como se eu pudesse vê-los à
minha frente, olhando para mim e exigindo uma explicação:
então era isso que você tinha para oferecer? Nos deixe em
paz, estamos melhor mortos do que desesperados. Baixei a
cabeça e tomei o caminho para casa.
No entanto, comecei a escrever este relato: ao que
parece, mesmo que eu já não tenha nem a força nem a
coragem para voltar às expedições, minha esperança,
extinta por um momento, não está realmente morta. E se o
porão em que não entrei fosse o certo, ou o próximo, ou
outro a oeste, naquela vez em que virei para o leste? Quem
sabe, um dia, um homem muito velho ou uma mulher muito
velha não chegue aqui, veja a placa de metal levantada, se
espante, tenha esperança e então comece a descer a longa
escada em espiral? Ele encontrará esta pilha de folhas em
cima da grande mesa de madeira, ele as lerá, e alguém
finalmente terá recebido uma mensagem de alguém. Neste
exato momento em que eu, exausta, estou no fim dos meus
dias, talvez um ser humano esteja caminhando na planície
como eu caminhei, de porão em porão, uma mochila nos
ombros, buscando obstinadamente uma resposta para as
cem mil perguntas que atormentam sua alma. Sei que não
vou poder esperar muito mais, que logo precisarei me dar o
golpe de misericórdia que tantas vezes minhas
companheiras me pediram, pois a dor já não está mais
dando trégua.
De vez em quando, à noite, eu subo e me sento lá fora.
Fico ouvindo. Recentemente, decidi tentar gritar, o mais alto
que eu conseguia: “Olá! Tem alguém aí?”. Minha voz estava
rouca e fraca, mas ainda dava para escutar. De resto,
escutei apenas o leve farfalhar da relva sob o vento suave.
Outra vez, juntei uma grande quantidade de galhos e fiz
uma fogueira que podia ser vista de longe. Mantive ela
acesa a noite inteira, apesar da razão me dizer que não há
ninguém. Mas ela também me diz que existem tantos
porões que provavelmente, muito provavelmente, haja
outro onde a sirene soou quando a grade estava aberta: e
por que estariam todos mortos? A noite passa, eu penso na
minha vida, na criança furiosa que provocava o guarda
jovem, irritada com seu presente como se tivesse um
futuro, ou subindo com leveza os cem degraus, apanhada
na armadilha das ilusões no meio da planície que se
estende interminável, monótona sob um céu quase sempre
cinza, ou de um azul tão pálido que parece estar morrendo
— mas um céu não morre, sou eu que morro, que já estava
morrendo no porão —, e digo a mim mesma que estou
sozinha nesta terra que já não tem carcereiros nem
prisioneiros, sem saber o que vim fazer aqui, eu, a senhora
do silêncio, a proprietária de porões e de cadáveres, digo a
mim mesma que andei milhares de horas e que em breve
darei meus últimos dez passos para deixar estas folhas em
cima da mesa e voltar para me deitar no meu leito de
morte, eu, a mulher velha e murcha cujos olhos, que
nenhuma mão fechará, estarão sempre olhando para a
porta. Gastei minha vida toda fazendo sabe-se lá o quê que
não me fez feliz, ainda me restam três gotas de sangue, e
essa é toda a libação que eu poderei fazer ao que o destino
determinou para mim. Então eu vejo o pálido amanhecer do
inverno e desço para dormir, caso a dor tenha me dado uma
trégua, na cama grande onde caberiam várias pessoas.
Sempre há luz. Às vezes eu torço para que uma noite ela
se apague, que alguma coisa aconteça. As mulheres se
perguntavam de onde ela vinha. Eu nunca consegui
entender bem as explicações delas sobre estações de
energia, torres de transmissão, fios condutores, e nunca
enxerguei nada que se parecesse com o que elas tentavam
descrever para mim: eu só vi a planície, as guaritas e o
abrigo onde estou terminando meus dias. Já faz um bom
tempo que não tento mais imaginar as coisas que não
conheço. Observei bastante os objetos que estão nas
prateleiras do corredor e não cheguei a lugar nenhum.
Talvez sejam armas, ou meios de comunicação que teriam
me permitido fazer contato com a humanidade. Tanto faz.
Desisti de ler e reler os livros e os tratados de astronáutica.
Houve tão poucos acontecimentos durante todos esses anos
que fiquei andando. Encontrei o ônibus, perdi a estrada,
cheguei aqui. De qualquer forma, em algum momento eu
iria morrer: mesmo se eu tivesse tido uma vida comum,
como as de antes, haveria de chegar a manhã do meu
último dia. Às vezes as mulheres sentiam pena de mim,
dizendo que elas, pelo menos, tinham conhecido a
verdadeira vida, e eu tive muita inveja delas, mas elas
morreram, eu estou prestes a isso, e o que significa ter
vivido quando não se está mais vivo? Se eu não tivesse
ficado doente, acho que teria partido de novo e ainda
estaria andando, pois nunca tive outra coisa para fazer.
Sei muito bem, mesmo quando afirmo o contrário, que eu
sou a única pessoa viva neste planeta que quase não tem
estações. Só eu posso dizer que o tempo existe, mas ele
passou por mim sem que eu o sentisse. Eu vi as outras
mulheres envelhecerem. Vou até o espelho, me olho:
imagino que essas rugas nas minhas bochechas e ao redor
dos olhos não existiam no passado, mas não me lembro do
meu rosto antes das rugas. Tinham me explicado o que
eram as fotos, mas não tenho nenhuma. Tudo o que sei
sobre o tempo é que os dias se sucedem, eu sinto sono e
durmo, sinto fome e como. E, é claro, eu conto. A cada trinta
dias, digo que um mês se passou: mas são apenas palavras,
elas não me dão realmente o tempo. Será que nunca se tem
o tempo, quando se está sozinho? Só é possível obtê-lo
observando sua passagem pelos outros e, como todas as
mulheres morreram, agora ele passa apenas pelas plantas
mirradas que crescem entre as pedras e que dão, muito
raramente, o mínimo necessário de flores para formar uma
única semente que cairá logo ali adiante, não muito longe,
já que o vento nunca é forte, e que germinará, ou não
germinará. A alternância dos dias e das noites não passa de
um fenômeno físico, o tempo é uma questão para os seres
humanos e, francamente!, como é que eu poderia me
considerar um ser humano, eu, que só conheci trinta e nove
pessoas, e todas mulheres? Acho que o tempo deve ter a
ver com a duração da gravidez, o crescimento dos filhos,
todas essas coisas que eu não experimentei. Se alguém
falasse comigo, haveria tempo, o início e o fim do que me
fosse dito, o momento em que eu respondo, as palavras
seguintes. A menor das conversas dá origem ao tempo.
Talvez eu tenha tentado criá-lo ao escrever estas páginas:
eu as começo, as encho de palavras, as coloco umas sobre
as outras e continuo não existindo, já que ninguém as lê.
Deixo elas para algum leitor desconhecido que
provavelmente nunca chegará — não tenho nem certeza de
que a humanidade tenha sobrevivido ao acontecimento
misterioso que determinou minha vida. Mas se esse leitor
vier, ele vai lê-las, e eu terei um tempo na cabeça dele. Ele
terá meus pensamentos nele: ele e eu, assim misturados,
constituiremos algo vivo, que não será eu, já que estarei
morta, e que não será mais ele tal como era antes da
leitura, já que minha história, somada à sua mente, passará
a fazer parte do seu pensamento. Eu só estarei realmente
morta se ninguém vier, se passarem tantos séculos, e
depois tantos milênios, e este planeta, que já deixei de
acreditar que é a Terra, não existir mais. Enquanto as folhas
cobertas pela minha escrita permanecerem em cima desta
mesa, eu poderei me tornar uma realidade em alguma
mente. Então tudo desaparecerá, os sóis se apagarão e eu
desaparecerei, como o universo.
Porque muito provavelmente ninguém virá. Vou deixar a
porta aberta e meu relato em cima da mesa, onde ele será
aos poucos coberto pela poeira. Um dia, os cataclismos
naturais que destroem os planetas varrerão a planície, o
abrigo desabará sobre a pequena pilha de folhas bem
organizadas, e elas se dispersarão entre os escombros,
jamais lidas.
Descobri que estava doente há três meses. Eu estava no
banheiro, terminando de defecar, quando fui tomada por
uma sensação desconhecida: algo quente estava
escorrendo pela minha vagina, aquela parte do meu corpo
que foi sempre tão silenciosa que eu nunca pensava sobre
sua existência. Me inclinei sobre o vaso e vi um grande
coágulo preto com filamentos amarelados. Eu estava
prestes a entrar em pânico quando perdi uma torrente de
sangue, com uma dor tão aguda que desmaiei. Quando
recobrei a consciência, eu estava deitada no chão e a dor
tinha passado. Consegui me levantar sem muita dificuldade,
ainda estava um pouco tonta, talvez por causa da
hemorragia, mas passou rápido. Eu me lavei, limpei o chão
manchado de sangue e, me lembrando dos ensinamentos
de Théa, assei um pedaço de carne vermelha para
compensar aquela perda.
As mulheres tinham falado da menopausa, mas imagino
que não seja meu caso, já que nunca cheguei a entrar na
puberdade. No entanto, não há nada que possa garantir que
eu não tenha útero nem ovários, mesmo que eles não
tenham se desenvolvido normalmente. Fiquei perplexa,
então disse a mim mesma que a preocupação não iria servir
para nada e tentei tirar aquele incidente da cabeça. Não sou
muito habilidosa nesse tipo de atividade mental e, mesmo
que fosse, não teria me servido por muito tempo: tudo
recomeçou já no dia seguinte. Meus sintomas eram
parecidos com os de Marie-Jeanne, que Théa dizia ter um
câncer nos órgãos genitais, e que foi se enforcar na jaula
quando não conseguiu mais suportar o sofrimento. Não
havia nada a fazer, e comigo não vai ser diferente. Théa me
contara que eles faziam operações, davam morfina. Talvez
haja remédios no corredor, mas não sou capaz de
reconhecê-los, e nunca encontrei nada parecido com
aqueles frascos de onde os guardas às vezes tiravam
comprimidos brancos para a febre.
A dor foi violenta desde o princípio e agora está se
tornando muito frequente. Sofro em mais da metade do
tempo, o que acaba com toda a graça da vida, e os
momentos de trégua são arruinados pela minha fraqueza.
Não consigo mais subir as escadas de uma só vez e, quando
chego lá no alto, sinto frio. Depois de quinze minutos de
caminhada, preciso descansar. O fato de não estar comendo
quase nada provavelmente não seja bom para mim, mas, se
me forço a comer, tenho enjoos. Meu fim está bem próximo.
Estou completamente sozinha. Mesmo que eu às vezes
sonhe com um visitante, já andei demais pela planície para
acreditar nisso. Ninguém virá, uma vez que só existem
cadáveres. Como é que pode o pai do príncipe Hamlet
aparecer para ele e falar com ele, se está morto? Os mortos
não saem do lugar, eles se decompõem onde estão e, por
fim, se reduzem aos seus ossos, que, ao menor contato, se
esfarelam. Vi centenas deles, nenhum jamais apareceu para
conversar comigo no meio da noite. Eu teria ficado muito
contente se isso tivesse acontecido! Théa tentara me
explicar o que significavam Deus e a alma para os cristãos.
Parece que as pessoas acreditavam fortemente nisso, há
menções até no prefácio de um dos livros de astronáutica.
Sentei algumas vezes sob o céu, quando ele estava bem
limpo, e fiquei observando as estrelas, enquanto eu dizia,
com essa minha voz que ficou tão rouca: “Senhor, se você
estiver em algum lugar aí em cima e não tiver muito o que
fazer, venha conversar um pouco comigo, eu estou muito
sozinha e isso me faria feliz”. Nada aconteceu. Então só me
resta pensar que a humanidade, da qual me pergunto se
realmente faço parte, tinha de fato muita imaginação.
Não devo estar muito velha: se eu saí do porão com mais
ou menos quinze anos, mal passei dos sessenta. As
mulheres diziam que, no mundo de antes, a expectativa de
vida estava acima dos setenta anos. Mas isso exigia um
acompanhamento médico. Lá, eu teria menstruado, teria
tido filhos e meu útero inútil não teria apodrecido. As
hemorragias são frequentes, ele está se desfazendo todo, e
eu sei o suficiente para não ter expectativa de que um dia
não reste nada dele e eu recupere a saúde. Já faz algum
tempo que venho tendo tosse e dores no peito: Théa me
falou sobre metástases. De todo modo, logo chegaria a hora
de intervir, mas não vou esperar, vai ser daqui a pouco,
porque estou quase terminando meu relato e, depois do
ponto final, não haverá mais nada para me segurar aqui.
Tão logo compreendi que estava doente, comecei a
pensar nas formas de tirar minha vida. Não quero me
enforcar e permanecer mumificada por toda a eternidade na
ponta de uma corda. Quero estar numa postura digna, como
aquele homem bem sentado entre os colchões dobrados,
olhando para a frente, mas, se a dor for muito intensa, corro
o risco de algo desagradável. Já não tenho tempo nem força
suficiente para ir até o ônibus buscar uma das armas que
coloquei sobre os túmulos, então afiei cuidadosamente uma
faca: se encostar um dedo, me corto. A lâmina é fina, plana
e resistente. Sei onde cravá-la para que passe direitinho
entre duas costelas, atinja o coração e o faça parar. Quando
a dor me deixa em paz, tenho dificuldade em acreditar que
vou conseguir, mas quando ela resolve atacar, minhas
dúvidas desaparecem.
Vou me deitar na cama, vou ajeitar as almofadas e os
cobertores bem enrolados em volta de mim, para que meu
corpo fique bem apoiado. Tudo ficará perfeitamente
organizado e limpo. Espero que não haja sangue, o que eu
sei que é possível. Talvez ninguém venha nunca, talvez um
dia um ser humano atônito, chegando ao pé da escada
como eu fiz há tanto tempo, veja o quarto e sua madeira
escura, a cama bem arrumada e uma velha sentada, com
uma faca no coração e um olhar sossegado.
É estranho que eu morra por conta do útero, eu, que
nunca menstruei e que nunca conheci os homens