O sotaque gay me é curioso.
Não falo das vogais abertas,
nem do tom uma nota mais alta,
nem da expressividade.

Também não falo do vocabulário,
icônico,
o meu surgiu natural,
nasceu na primeira vez
que aquendei na frente do espelho.

Pari um viado, pensei.
Fui eu a mãe, fui eu a cria,
num salto alto maior que meus pés,
dois peitos de bexiga, volumosos.

Lembro minha mãe,
mãe do viado que eu pari.
Ela conta que, criança,
eu gostava de peitão nas mulheres
— deve ser por isso que mamou até os seis, dizia.
Acho agora que os peitos eram inveja.

Não te surpreende?
Em todo lugar, em todo país,
nascer uma afeminada?

Senhora! Mona!
Tu não me engana,
te conheço, abelhinha.
Beeeeee!

Bixa,
não fique brava
de eu usar viado, afeminada,
de falar no pronome feminino.
Que normatividade é essa, macho discreto?

Que desperdício!
Ouvi isso de héteros, acredita?,
quando me achavam homem demais pra ser viado.
E de viados,
quando eu usava meu feminino pra ser livre.
Aparentemente sou urso,
e é tudo que me permitem ser.

O humano adora regular um corpo.
Mas meu radar nunca errou
um olho açucarado lá fora.
Sabe? Aquele olhar doce
que pede, suplica para ser visto.

Me perdi nos versos, mas voltando, sotaque,
o sotaque é isso, não é?

Um…

— Eu estou aqui!