Visita não abre geladeira,
não anda em corredores sem convite.

Assim sou eu,
só habito os cômodos
cuja chave você me entregou.

Tem gente que vai abrindo cômodos sem parar dentro de si,
deve até se perder por lá.
E não, não tenho medo de casarões.

Se acha que não ardi,
que não te conheci,
é que fiquei na sala
esperando que me chamasse,
me oferecesse água e um sorriso.

— Pode entrar, sinta-se em casa!

Meu calor sabe esperar à porta,
por respeito, não frieza.
Não sou dessas securas.

Gosto de ver a copa da pessoa
e quantas pessoas cabem na mesa do seu coração.
Eu acho que corações são copas.

Quais temperos ela tem em sua cozinha,
o cheiro de café, o pão no forno…
Nossa, que saudade de gente com cheiro de café da manhã!

E o jardim, como eu gosto dos jardins!
Aquele que fica no fundo, sabe?
Que ninguém vê sem entrar.

Tem gente que é canteiro de flores,
outras são frutas apetitosas só de ver,
tem gente que é só matinho e chão batido.

Acho que gosto mais dos jardins que das paredes,
e olha, tenho apreço por paredes brancas:
cabem quadros, enfeites, todo tipo de quinquilharia.

Dá pra enfeitar comigo suas paredes brancas,
e a gente abre mais cômodos, com mais paredes.

"A gente", eu disse? Me desculpe!
Olha meu atrevimento…

Já me sinto de casa.